25/04/2007
Em entrevista especial para o site da FMP, o Procurador Internacional do Ministério Público do Timor Leste, Dr. Mario Romera comenta a sua trajetória no país asiático.
- Há quanto tempo estás no Timor Leste?
Cheguei aqui em 13 de setembro do ano passado, portanto há seis meses e
três dias passados, depois de quatro dias de viagem ( vôos e paradas ). O
roteiro: Porto Alegre, São Paulo, Santiago, Auckland, Sydney, Darwin e
Dili. Com direito a uma noite em cama de hotel, em Darwin, na Austrália.
- Quais foram as suas primeiras impressões quando chegou ao país?
Timor Leste é um estado recente, tendo sido ocupado por muito tempo por
estrangeiros e colonizadores: Portugueses, Japoneses, Indonésios e UN. Ele
está desorganizado, desde a saída da Indonésia em 1999, depois de muitas e
sofridas lutas. Ele não se aprumou como estado soberano e independente. Há
ação de poder paralelo aqui, hoje, por interesses variados: UN, elite
local e Austrália, pelo menos. O sistema de justiça é frágil e pouco
confiável, sofrendo interferências, na maioria das vezes veladas, externas
e internas. O desemprego é alto e a economia é sem expressão, salvo o
petróleo, explorado pela a Austrália, mediante acordo, dai, seu interesse.
- O que poderia citar em termos de diferenças e semelhanças (culturais e
jurídicas) entre o Brasil e o Timor Leste?
As culturas são distintas. Aqui, por exemplo, a vida vale pouco, enquanto
que a morte vale muito e se gasta muito para cultuá-la. Uma vida pode ser
indenizada com bens materiais comuns: vacas, búfalos, porcos, dinheiro
etc. Custa pouco. Já a morte é seguida de rituais temporários, enterro e
sepultamento, sétimo dia, um mês até um ano, com festas para as pessoas
que se apresentam para a cerimônia. Ela não é somente religiosa. Ela é um
misto com a cultura. São festas com comidas e bebidas, com gastos altos.
Muito maiores do que a indenização exigida.
A par do sistema de justiça instituído, há uma justiça tradicional, com
base na cultura do povo: Os chefes de Suko ( localidades ) com as famílias
( integrantes delas ) discutem e resolvem os problemas oriundos de
qualquer litígio, incluindo os crimes cometidos. Claro está que tal
decisão não elimina o sistema de justiça, mormente nos crimes mais graves.
Mas se todos aceitarem e nada for divulgado, selada está a decisão.
O casamento, outra figura diferente, realizado na igreja, mas tem o fundo
sócio-cultural. A mulher é comprada pela família do noivo, através do
barlak ( barlaque, para outros ). Este consiste em valor ofertado ?
família da mulher, traduzido, principalmente, em búfalos ( usado na
lavoura com grande valor econômico ), podendo ser em outros bens e até
dinheiro. A família do homem recebe algo em menor preço ( porcos, galinhas
e tais - tecido usado aqui para vestimenta ou em rituais) . Assim depois
de casada, a mulher não é aceita de volta por sua família, pois isto
obrigaria a devolver o barlak. Ou ela se submete ao marido e ? sua família
ou fica ? margem da sociedade. Disse ? família dele, pois, se ela ficar
viúva, ela deve viver com a família do marido, sem direito a criar os
filhos por ela mesmo, salvo com permissão dos familiares dele. Casar
novamente geralmente é um problema, salvo um bom barlak.
- Poderia nos contar um pouco sobre o trabalho que estás realizando no
Timor Leste?
Atuo como Procurador da República, ( o Promotor de Justiça brasileiro )
nos inquéritos e processos. Para eles, tudo é processo. Aqui quem dirige a
investigação é o MP, que pode fazê-la diretamente ou delegar competência ?
Polícia, sendo tudo controlado pelo órgão ministerial. Com nomes
diferentes ( denúncia = despacho de acusação ), faço o que os colegas
gaúchos fazem. Inexiste especialização, por matéria, e predomina o crime,
como atividade funcional. O Código de Processo Penal é timorense ( quase
uma cópia do português ), mas o Código Penal é Indonésio, escrito ou em
inglês ou em bahasa indonesio ).
Por outro lado, dou apoio e orientação aos Procuradores Nacionais em
estágio, com o objetivo de eles atuarem sozinhos nos feitos. Discute-se um
inquérito e se dá o aconselhamento para melhor agirem. A troca de
experiências é salutar. Esse é o único motivo que me mantém aqui. Vim para
ajudar o timorense a ser Procurador, usando suas próprias ações e
conhecimentos, sem tutela de qualquer pessoa.
- Como são as instituições de ensino do Direito?
São três, parece, todos de caráter duvidoso. Usam todo o direito
português, muito inaplicado aqui, por óbvio. É de difícil conhecimento
dos timorenses. A maioria deles tem formação jurídica na Indonésia,
inclusive hoje. Lá é feito o curso, sob a ótica do direito indonésio, é
claro, inaplicado, aqui, salvo quanto ao Direito Penal, já falado, e o
Direito Civil, que também é da Indonésia.
Já os códigos de processo, ambos são nacionais.
Uma curiosidade: O Código Penal local está desde o fim de 2005 para ser
promulgado pelo Presciente da República, que nada fez por causa da
existência do crime de difamação, segundo dizem. Politicamente não é
correto tal delito, ou para os políticos, melhor dizendo.